sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Mentiram para você sobre a Proclamação da República

Muito Obrigado Marechal Deodoro da Fonseca!


Nesta semana, comemoramos a Proclamação da República, aos 15 de novembro. Esta é mais uma data importante no calendário de feriados nacionais. Vamos relembrar que, com maestria e heroísmo, Marechal Deodoro da Fonseca conduziu a mudança na forma de governo no Brasil, que deixara de ser uma monarquia (que estava em crise, sofrendo forte oposição e se demonstrando antiquada, atrasada, retrógrada, não atendendo aos interesses populares) para ser uma República. Estávamos livres da tirania do Imperador D. Pedro II para enfim abraçarmos a democracia e o desenvolvimento.

Infelizmente, caro leitor, as mentiras que acabei de contar são largamente ensinadas nas escolas, em livros didáticos, sem que haja um debate bilateral e uma conexão com a realidade da época e o atual cenário de crise brasileira.

Em meio ao momento de profunda crise em que o Brasil se encontra, seja ela de ordem política, econômica, social ou representativa, é impossível tentar entender o que estamos vivendo hoje sem analisar e conhecer a nossa própria história, o que faço nesta data para aproveitar o ensejo nacionalista.

Primeiramente, entenda que crises não são novidade alguma na história do Brasil. Mensalões, petrolões, ditaduras, coronelismo, “Sérgios Cabrais”, hiperinflação, assassinato de prefeitos, ministros, são alguns dos incontáveis exemplos de fatos ocorridos na história do Brasil. É chegada a hora dos brasileiros se perguntarem: O Brasil sempre foi assim, um país suscetível à instabilidade de qualquer ordem? Felizmente (ou infelizmente) a resposta é não. Houve sim um acontecimento que foi um ponto de inflexão na nossa história, onde nós deixamos de ser um país estável e com crescimento para sermos o país da crise. Este evento se chama Proclamação da República.





Agora sim, caro leitor, deixando a mentira de lado, vou lhes contar a verdade sobre o dia 15 de novembro de 1889. A proclamação da República foi nada mais do que a união dos interesses das elites cafeicultoras da época com o sentimento de recalque de alguns militares. Os primeiros se sentiram profundamente prejudicados com a Lei Áurea. Isto se deve ao fato de que o escravo era considerado propriedade privada, além disso, ele era a força motriz da produção cafeeira, que era o carro chefe da economia do período. 

A intenção do Imperador D. Pedro II era, após a libertação dos escravos, ceder a eles terras ociosas próximas a vias férreas para que pudessem promover o cultivo de subsistência. Antes disso, o Imperador, devido ao seu elevado preparo para a função de chefe de estado, sabia que a abolição da escravidão de uma forma abrupta poderia gerar consequências inimagináveis para a sociedade e para os donos de escravos. Por isso, foram decretadas as leis do Ventre livre e dos sexagenários, numa tentativa de abolir gradualmente a escravidão. Também era intenção do Magnânimo promover a gradual industrialização do Brasil. Isto também desagradou às elites cafeeiras visto que estas temiam perder poder político e econômico em um país industrializado. 

Nesta conjuntura, já não é mais surpresa que as oligarquias cafeeiras prontamente se tornariam republicanas. Já o lado militar do ocorrido se sentia desvalorizado pelo Imperador, se queixavam dos soldos e do pouco reconhecimento após a Guerra do Paraguai. Os jovens oficias do Exército foram “contaminados” pelo Positivismo, que se opunha ao antigo regime por considera-lo um estágio a ser superado na evolução do homem pautada na ciência. Tal pensamento filosófico fora fomentado por um professor militar da Academia da Praia Vermelha chamado Benjamim Constant (soa muito atual essa história de professores querendo ensinar ideologias aos alunos).





E onde estava o povo neste cenário? 

          Apenas um ano antes da queda do Império, o povo estava comemorando a Lei Áurea pelas ruas do Rio de Janeiro, na rua do Ouvidor, nas proximidades do Paço Imperial, no Cais do Porto. O povo não queria a República, a população nunca “bateu panela” contra D. Pedro II e sua filha, muito pelo contrário. Após a abolição, a popularidade da Princesa Isabel se elevou ainda mais entre as camadas mais pobres. 

Nem mesmo o parlamento queria a República. 

         O partido republicano era nanico, sem força política para mover uma palha diante de Visconde de Ouro Preto, Chefe do Gabinete de Ministros (cargo semelhante ao de Primeiro Ministro). A ausência total de participação do povo na mudança de sistema ficou marcada ao longo dos anos. Basta comparar a forma como o povo comemora o 7 de Setembro em detrimento de como nos comportamos no feriado de 15 de novembro. Muitos até mesmo confundem o dia bandeira com o da proclamação da República. A monarquia está intimamente ligada ao nascimento de um Brasil autêntico, às raízes brasileiras. Tanto é que certas expressões, mesmo após a queda do império, ainda não saíram da boca do povo como: “Dona”, ”meu rei”, ”barão” e o regime deixou marcas da proximidade popular até hoje através das escolas de samba do Rio de Janeiro como Imperatriz Leopoldinense, Império Serrano e etc.

         Mesmo sem apoio popular, sem força política republicana no parlamento, o Imperador fora derrubado e sua família exilada para a Europa sob força militar. Sim, amigos, a própria Proclamação da República foi o primeiro Golpe de Estado na História do Brasil independente. O exílio foi realizado na madrugada porque os verdadeiros golpistas sabiam que haveria revolta popular no Rio de Janeiro caso o Imperador fosse visto se encaminhando ao exterior a força. O Imperador viu sua esposa morrer no exílio, assim como alguns amigos e veio a falecer em Paris, num hotel de segunda poucos anos mais tarde. Terminava de forma melancólica, digna de um drama, o período mais estável política e economicamente da história do Brasil, onde asseguramos nossa unidade territorial em meio a um mar de pequenas republiquetas, tivemos avanços como a chegada do telefone, das ferrovias, libertação dos escravos; um sistema eleitoral representativo; inflação controlada, crescimento econômico, uma moeda forte, uma única constituição e o nascimento da nossa identidade nacional autenticamente brasileira.

       A partir de então, começamos a ver o nascimento de muitos problemas com os quais hoje nos deparamos no Brasil. Com a proclamação da Republica, houve o primeiro surto de favelização no Rio de Janeiro, pouco mais tarde, o primeiro surto inflacionário com o Encilhamento, as compras de voto com o Coronelismo, os golpes de Estado (7 ao todo), a censura e perseguição a opositores com o Marechal Floriano Peixoto, as várias constituições (6 ao todo) e as várias mudanças de moeda. 

       Não há dúvidas de que a proclamação da República foi um dos maiores erros da história do Brasil.

       Para finalizar, gostaria de deixar parte de um texto de Monteiro Lobato chamado “A luz do Baile”, que mostra importância da referência moral de D. Pedro II na sociedade brasileira:
Pedro II era a luz do baile. Muita harmonia, respeito às damas, polidez de maneiras, joias de arte sobre os consolos, dando ao conjunto uma impressão genérica de apuradíssima cultura social. Extingue-se a luz. As senhoras sentem-se logo apalpadas, trocam-se tabefes, ouvem-se palavreados de tarimba, desaparecem as joias…”

    Há o que comemorar no dia 15 de novembro? Comemorar o golpe, talvez. Ou comemorar o nascimento de uma grande mentira que nós repetimos como um mantra até hoje: O Brasil é o país do futuro. Como diria D. Bertrand de Orleans e Bragança, bisneto da Princesa Isabel: “Não há um brasileiro que diga de boca cheia que a República deu certo”

Artigo escrito por Joel Pereira Anastácio