segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Lições de Maquiavel: Quem é o verdadeiro opressor?



O livro O Príncipe de Nicolau Maquiavel foi escrito no séc. XIV como uma coletânea de ensinamentos ao príncipe Lourenço de Médice, da cidade de Florença. 

Este livro foi o marco do início das ciências políticas visto que reúne experiências diplomáticas do autor em diversas áreas relacionadas ao estado, como: dominação de territórios, conquista de povos, formação e condução de exércitos, entre outros assuntos. 

É possível extrair conhecimentos desta obra para algumas situações do Brasil atual em aspectos de liderança política.

Confesso que acabei lendo este livro totalmente sem querer, durante um curso realizado em um centro de instrução militar. Mas hoje, através deste artigo, consigo perceber como ele foi importante para entender um pouco o que se passa no Brasil.

O nome Maquiavel atualmente tornou-se adjetivo relacionado a pessoas que agem em prol de seus objetivos por mais que suas atitudes possam não parecer as mais corretas. Isto se deve ao fato da obra deste autor ter como principal característica a dissociação entre moral e política, não sendo obrigatório o príncipe cumprir seus deveres morais no intuito de conseguir seus objetivos até o ponto em que isto não o atrapalhe. 

Tal fato pode ser verificado, por exemplo, no capítulo V onde o autor cita três modos de dominar uma província que vivia sobre suas próprias leis: arruinando-a, habitando-a ou deixando a viver mas cobrando-lhes impostos para isso. No que tange os impostos, nós brasileiros sabemos bem o quanto isto é prejudicial à liberdade e impede que as pessoas cresçam e se desenvolvam. Tal tática de aumento na cobrança de impostos também é citada por Karl Marx no Manifesto do partido Comunista como uma estratégia para a implantação do comunismo em países desenvolvidos.






No capítulo IX, é possível obter ensinamentos que faltam hoje a alguns políticos brasileiros. Nicolau Maquiavel menciona a forma em que o Príncipe chega ao poder sem crueldade (não celerado): pode-se chegar ao poder por meio do apoio dos grandes (oligarquias) ou pelo apoio do povo (Governo Legítimo). Porém, o livro ressalta ainda dois pontos importantes: os grandes fazem um príncipe para “desafogar os seus apetites” (satisfazer privilégios) enquanto o povo faz de alguém príncipe para “ser com autoridade seu defensor” e; “não se pode com honestidade satisfazer os grandes sem oprimir o povo”. 

É surpreendente como é possível enxergar exatamente o que acontece no Brasil do séc. XXI em um livro do séc. XIV. Vemos hoje, na pior crise de nossa história, uma sequência de governos dos grandes, que rotineiramente aprovam leis para benefício próprio, que se envolvem em esquemas de corrupção bilionários criando rombos sem fim nas contas públicas, motivando a criação de mais impostos para cobrir tais déficits. E nós, como povo, não temos mecanismos constitucionais para barrar medidas parlamentares, ou fazer a nossa voz ser ouvida entre os deputados e senadores. 

Quando vemos políticos com mais de 90% de reprovação popular fazerem o que querem com o dinheiro público, percebemos que o “Príncipe defensor do povo” ainda não existe no Brasil. 

Ainda neste mesmo capítulo, o autor menciona: ”Deve, portanto, alguém que se torna príncipe mediante o favor do povo mantê-lo amigo, o que lhe será fácil, pois o povo não exige mais do que não ser oprimido”. Opressão, uma palavra largamente difundida hoje em dia, é atribuída aos entes errados. O próprio povo, devido a ideologias propagadas por décadas em nossa educação básica, não é mais capaz de perceber que o seu principal opressor não são os grandes empresários, ou o homem branco, ou a religião cristã. 

O principal opressor do povo é o governo.

Por fim, deixo uma famosa frase de Rui Barbosa, em visita ao então Presidente Delfim Moreira:


“Que estranho país é o Brasil, onde até um louco pode ser presidente e eu não posso.”